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Contrastando com a aspiração de muitos consumidores por um dispositivo único e multifuncional capaz de centralizar todas as interações tecnológicas, a Google delineou uma visão alternativa para o futuro do hardware impulsionado por inteligência artificial. A empresa sustenta que o panorama futuro não será dominado por um único aparelho que abrange todas as funcionalidades, mas sim por um ecossistema diversificado e interconectado de acessórios.
Rishi Chandra, vice-presidente de Fitbit e Saúde da Google, declarou: “O futuro será um conjunto muito diversificado de acessórios que as pessoas podem escolher para si, personalizado para elas, em seu ambiente e com o que se importam.” Esta afirmação sintetiza a perspectiva da gigante de tecnologia, sugerindo que, em vez de simplificar o número de gadgets portados, a proliferação de dispositivos inteligentes poderia ser, na verdade, fortalecida pela inteligência artificial.
Esta abordagem ficou evidente durante o recente evento “Made by Google”, realizado em um estúdio no Brooklyn Navy Yard. Na ocasião, a empresa apresentou uma linha de quatro novos telefones, um smartwatch e um par de fones de ouvido. Embora lançamentos de produtos múltiplos sejam rotineiros, as atualizações deste ano revelaram uma mudança de paradigma. A percepção foi que a inteligência artificial Gemini, desenvolvida pela Google, está sendo integrada profundamente em cada segmento dos produtos apresentados.
Em vez de romper as barreiras dos sistemas fechados (os chamados “walled gardens”), a integração ubíqua da IA da Google parece consolidar a estratégia de interconectividade dos seus próprios dispositivos. Esta tendência indica uma possível multiplicação de gadgets que as pessoas carregarão, ao invés de uma unificação em um aparelho singular. Essa mudança é interpretada como uma guinada significativa no campo da computação móvel, especialmente no que tange aos dispositivos vestíveis (wearables).
O segmento de wearables, outrora motivo de debate sobre sua viabilidade e até declarado “morto” por análises passadas, agora é posicionado pela Google como uma vanguarda para a aplicação da inteligência artificial. Sandeep Waraich, líder de produto da Google para wearables Pixel, elucidou essa transição. Ele explicou que os primeiros quinze anos de dispositivos vestíveis foram caracterizados pela coleta esporádica de dados e pelo conceito de “eu quantificado”, exemplificado por produtos como o Fitbit.
Contudo, Waraich enfatiza que a evolução agora caminha para a obtenção de “insights contínuos e personalizados”, dada a capacidade da IA de processar grandes volumes de dados de forma mais eficaz. Segundo o executivo, “Os dados, por si só, só chegam até certo ponto. [A tendência] está se movendo de algo altamente genérico para algo muito pessoal.” Esse direcionamento faz com que o setor de tecnologia enxergue nos vestíveis um potencial significativo para a IA.
A natureza dos wearables — de estarem constantemente acoplados ao corpo do usuário — é fundamental para essa visão. Diferentemente dos smartphones, que podem ser deixados sobre mesas, guardados em bolsas ou até mesmo desligados em determinados contextos, os dispositivos vestíveis garantem uma “presença contínua no corpo”, nas palavras de Waraich. Essa constância permite a coleta de dados de forma ininterrupta, um pré-requisito crucial para o desenvolvimento de um assistente de IA verdadeiramente personalizado e sempre disponível. Para uma inteligência artificial conhecer o máximo sobre seu usuário, não haveria, argumenta a empresa, um meio mais eficiente do que estar continuamente conectado a ele.
Atualmente, o hardware de inteligência artificial encontra-se em um estágio descrito como “estágio do macarrão”, uma metáfora para um período de intensa experimentação. A indústria ainda não identificou uma fórmula vencedora, o que resulta em uma variedade de conceitos sendo testados. Exemplos dessa diversidade incluem gravadores de vida que buscam funcionar como uma “segunda memória” e a hipótese da Meta de que óculos inteligentes multimodais seriam a “porta de entrada ideal para a IA”. Além disso, há a natureza sigilosa de projetos desenvolvidos por nomes como Jony Ive e Sam Altman, onde a incerteza sobre o formato final apenas ressalta a falta de um padrão definitivo no mercado.
No entanto, a Google sustenta que nenhum formato de hardware se tornará soberano. Rishi Chandra reiterou a falta de um caminho único para o futuro do Gemini e seus form factors. “Qualquer crença que se tenha agora é provavelmente prematura”, comentou Chandra. “Não há dúvida na minha mente de que novas formas existirão. Mas acho que é muito cedo para ter convicção. O interessante é que a IA está se movendo tão rápido que qualquer ponto de vista que você tenha sobre o hardware pode mudar muito rapidamente.”

Imagem: The Verge via theverge.com
A Google, conforme a visão de Chandra, está abraçando essa fase experimental. Parte dessa estratégia envolve uma abertura para a inovação, exemplificada pela plataforma nascente Android XR, dedicada a óculos inteligentes. Outro pilar dessa abordagem é a otimização dos dispositivos já existentes: o smartphone serve como ponto de partida, com smartwatches e fones de ouvido atuando como extensões naturais. No entanto, a empresa acredita que o potencial completo do hardware de IA ainda não foi liberado. A expectativa, expressou Waraich, é que por meio da experimentação e da maximização de capacidades, uma combinação inovadora e vencedora venha a surgir.
Chandra reiterou que o objetivo final é tornar toda essa interconexão funcional, de forma que a pluralidade de dispositivos seja transparente para o usuário. Essa visão alinha-se perfeitamente com o conceito de “computação ambiente” da Google. Nesse cenário, os dispositivos funcionam em segundo plano, autonomamente e de forma proativa, antecipando e atendendo às necessidades do usuário. Por exemplo, uma lâmpada inteligente pode ajustar sua intensidade luminosa ao interagir com o smartphone que registra uma mensagem do usuário indicando uma dor de cabeça.
A concretização da computação ambiente, segundo a Google, é impossível com um único gadget superpoderoso. Também falharia se os múltiplos gadgets não compartilhassem uma linguagem comum. Por isso, a empresa posiciona o Gemini como a “cola” que uniria todo o ecossistema. Se a inteligência artificial Gemini se tornar a IA indispensável e estiver predominantemente incorporada ao hardware da Google, isso poderia, hipoteticamente, levar os usuários a se desprenderem da preocupação com as plataformas e bolhas de comunicação. Assim, para um funcionamento ideal, a visão é que não bastarão smartwatches, ou fones de ouvido, ou apenas um smartphone isolados. Todos esses dispositivos, equipados com IA, precisarão trabalhar em conjunto.
Parte dessa transição é impulsionada pela maturidade do mercado de smartphones, que se aproximam de duas décadas de existência. Gadgets que antes inspiravam admiração, hoje são percebidos por muitos como utilitários do dia a dia, mais próximos de um “Toyota Camry” do que de uma “Ferrari”. Hans Vestberg, CEO da Verizon, declarou no ano anterior que “os tempos emocionantes acabaram” e que muitos usuários mantêm seus telefones por três anos ou mais. Embora esses números variem por região e demografia, grandes empresas de tecnologia já admitiram publicamente que as pessoas não estão mais trocando seus smartphones com a frequência de antes.
Vista sob essa perspectiva, a intensa aposta no hardware de inteligência artificial começa a fazer sentido como uma estratégia para reativar o mercado de eletrônicos e engajar os consumidores com inovações. No entanto, a percepção que emerge da reportagem indica que essa direção, focada em mais dispositivos e mais IA, pode entrar em conflito com o desejo expresso por parte da população de ter suas vidas simplificadas e seu tempo restituído, uma promessa que a própria Google associa à IA em geral. Mesmo reconhecendo o valor de certas facetas dessa visão, conciliar o acréscimo de gadgets com IA à fadiga existencial da vida moderna, onde as pessoas buscam simplificação e menos “sempre-ligado”, representa um desafio conceitual.
Apesar dessa tensão, a Google está totalmente comprometida com essa aposta. A linha Pixel 10 e o Pixel Watch 4 são exemplos de produtos que refletem essa visão e a intenção de inovar em um cenário de atualizações que, por vezes, parecem incrementais. Paralelamente, o crescente interesse em anéis inteligentes e o sucesso recente da Meta com seus óculos inteligentes, após anos de dificuldade em atrair o público para o conceito de metaverso, apontam para a convergência de diversas empresas em wearables com inteligência artificial, sinalizando um novo capítulo na evolução tecnológica. A tendência observada sugere um futuro onde múltiplos dispositivos vestíveis habilitados com IA se tornarão o ponto focal da próxima fase de inovação.
Com informações de The Verge
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