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A Polícia Federal (PF) iniciou, na última segunda-feira, 25 de agosto, uma investigação formal sobre a disseminação massiva de mensagens alarmistas que incentivavam a retirada de fundos do Banco do Brasil. A ação policial segue uma notícia-crime protocolada pela Advocacia-Geral da União (AGU), com o acionamento da Procuradoria do Banco Central (BC), sob a alegação de que tais comunicações teriam como finalidade “gerar caos no sistema financeiro nacional”. As mensagens, veiculadas em plataformas de redes sociais e aplicativos de troca de mensagens, como WhatsApp e Telegram, propagavam conteúdos visando minar a confiança na solidez da instituição financeira pública brasileira.
Nos dias que precederam a instauração da investigação, numerosos cidadãos brasileiros que acessaram redes sociais e grupos de WhatsApp foram impactados por conteúdos em vídeo, fotografia e texto, portando alertas como “Tire seu dinheiro do Banco do Brasil” ou “Brasileiros sacando seu dinheiro pelo risco Moraes/Dino”. A gravidade percebida pela AGU culminou na justificativa para a abertura da apuração. A entidade classificou a ação como uma “ação articulada de disparo massivo de publicações que buscam aterrorizar a sociedade”.
Análise revela a amplitude da campanha
Essa perspectiva da Advocacia-Geral da União encontrou respaldo em levantamentos de dados conduzidos pela empresa de análise de tendências sociais Palver, que monitorou uma vasta quantidade de comunicações. A pesquisa, realizada a pedido de veículos de imprensa, cobriu mais de 100 mil grupos públicos na plataforma WhatsApp e cerca de 5 mil no Telegram. As informações coletadas pela Palver revelaram que o Banco do Brasil emergiu como um tema recorrente de discussão durante a segunda quinzena de agosto. Nessas conversas digitais, notou-se uma clara predominância de conteúdos de natureza alarmista, focados na projeção de um futuro incerto para o Banco do Brasil.
De acordo com a análise do cientista de dados Lucas Cividanes, atuante na área de inteligência e análise da Palver, o principal propósito de uma parcela substancial dessas mensagens era instigar o pânico entre a população. Cividanes ressaltou que esse assunto carrega um alto grau de sensibilidade para os brasileiros, dada a memória histórica de episódios econômicos adversos, como os períodos de inflação elevada e o fantasma dos confiscos de poupança.
A controvérsia em torno do Ministro Alexandre de Moraes
No pano de fundo dessa mobilização de conteúdos alarmistas, destacava-se a atuação do ministro Alexandre de Moraes, integrante do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado foi, no final de julho, alvo de sanções internacionais, baseadas na chamada Lei Magnitsky. Essa legislação norte-americana tem por finalidade impor punições a indivíduos estrangeiros que estejam envolvidos na promoção de violações dos direitos humanos.
No contexto do ministro Moraes, um dos argumentos centrais para a aplicação das sanções foi a acusação de que ele teria supostamente feito uso excessivo de sua posição de autoridade, com o intuito de enfraquecer a “liberdade de expressão” de cidadãos americanos. Tal alegação foi impulsionada pela sua decisão de requerer a suspensão de contas e perfis em redes sociais que desrespeitaram determinações judiciais emitidas no Brasil.
A Lei Magnitsky implica um conjunto de medidas restritivas de natureza financeira, desenhadas para impactar severamente os bens do indivíduo sancionado. Entre essas medidas, figuram o congelamento de ativos e recursos financeiros localizados nos Estados Unidos, além da expressa proibição para qualquer pessoa ou corporação americana de conduzir transações econômicas com o indivíduo afetado. Foi neste ponto que o Banco do Brasil ingressou na narrativa em questão. A relevância do banco decorre do fato de ser a instituição financeira através da qual os ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo Moraes, recebem seus respectivos vencimentos.
Teoricamente, a aplicação das diretrizes da Lei Magnitsky implicaria a potencial inativação de cartões de crédito emitidos em nome do ministro Moraes, sobretudo aqueles vinculados a bandeiras de origem americana, como Visa e Mastercard. Adicionalmente, especulava-se que o ministro poderia ser impedido de manter contas bancárias e investimentos em qualquer instituição financeira que possua operações ou atuação no mercado dos Estados Unidos. Contudo, o alcance exato dessas restrições permanecia como um ponto de incerteza.
Em 21 de agosto, uma reportagem do periódico “Valor Econômico” divulgou informações de que um cartão de crédito do ministro Moraes, emitido pelo Banco do Brasil, teria sido cancelado, e em sua substituição, foi oferecido um cartão da bandeira Elo, que possui origem nacional. É importante salientar que esta informação específica não obteve confirmação oficial, tanto por parte do Banco do Brasil quanto pelo ministro Moraes. Conforme os dados apresentados pelo levantamento da empresa Palver, a mesma data de 21 de agosto coincidiu com o registro do pico de menções ao Banco do Brasil em grupos de mensagens.
O papel da nota do BB e a decisão do Ministro Flávio Dino
O que realmente contribuiu para o tom acentuado e alarmista da comunicação entre os influenciadores identificados como alinhados ao movimento bolsonarista foi uma nota emitida e divulgada pelo próprio Banco do Brasil em 19 de agosto. No comunicado oficial, a instituição declarava: “O Banco do Brasil atua em plena conformidade à legislação brasileira, às normas dos mais de 20 países onde está presente e aos padrões internacionais que regem o sistema financeiro”. Nos grupos de WhatsApp, a atenção dos usuários e o apego principal se concentraram na parte da declaração que afirmava: “O Banco do Brasil atua em plena conformidade à legislação brasileira”.
Essa frase ganhou destaque especial considerando que, um dia antes da publicação da nota do Banco do Brasil, o ministro Flávio Dino, também do Supremo Tribunal Federal, havia proferido uma decisão judicial de relevância. O ministro havia proibido a aplicação automática, no território brasileiro, de sentenças judiciais ou leis provenientes de jurisdições estrangeiras. Tal proibição se estenderia a não ser que essas disposições fossem validadas por meio de acordos internacionais previamente estabelecidos ou recebessem a necessária referenda e aprovação pela Justiça brasileira. Esta medida judicial incluía, implicitamente, a Lei Magnitsky, que havia sido invocada para aplicar retaliações contra o ministro Alexandre de Moraes.
Desta forma, os elementos se alinharam para que uma “tempestade perfeita” se formasse, criando um ambiente propício para a deflagração da campanha contra o Banco do Brasil nas redes sociais, segundo os analistas do tema.
Escalada contra a instituição e contexto financeiro
Os dados detalhados analisados pela empresa Palver demonstram que a gênese da onda de mensagens e comunicações focadas no Banco do Brasil teve início, na realidade, no dia 14 de agosto, antecedendo, portanto, a decisão proferida pelo ministro Flávio Dino. Foi a partir dessa data que a quantidade de menções referentes à instituição financeira escalou progressivamente, atingindo seu ponto mais elevado, ou pico, no dia 21 do mesmo mês. É relevante notar que em 14 de agosto foi amplamente divulgado que o Banco do Brasil havia registrado um lucro líquido ajustado na ordem de R$ 3,8 bilhões durante o segundo trimestre do ano corrente. Esse valor representou uma redução de 60% quando comparado ao resultado apurado no mesmo período do ano anterior, e ficou aquém das expectativas e projeções do mercado financeiro.
Entre os principais fatores que contribuíram para esse desempenho abaixo do esperado, encontram-se a acentuada elevação dos índices de inadimplência tanto entre pessoas físicas quanto no setor do agronegócio. É sabido que o Banco do Brasil é o maior provedor de financiamento para o agronegócio no país, um segmento que, naquele período, enfrentava uma série de recuperações judiciais e dificuldades econômicas. Em uma análise conduzida por Reinaldo Boesso, fundador da fintech TMB e profissional com vasta experiência em fundos de investimentos, os desafios enfrentados pelo setor agropecuário foram um dos motores de outra notícia relacionada ao Banco do Brasil que igualmente acirrou a base de apoiadores do ex-presidente. Em 21 de agosto, o banco informou que os dividendos correspondentes ao terceiro trimestre do ano de 2025 seriam integralmente efetuados apenas em 11 de dezembro de 2025, configurando, assim, a retenção do pagamento antecipado.
“Isso configura uma medida de precaução de ordem econômica e ponto final. E está tudo certo”, avaliou Boesso. Ele explicou ainda que “isso é claramente uma prática constante no mercado financeiro: a contenção de pagamentos quando surgem problemas, visando a manutenção da capitalização e a prevenção de uma crise.” Contudo, o resultado financeiro aquém das projeções e o desenvolvimento das notícias relativas ao ministro Moraes, de acordo com as observações da Palver, transformaram a instituição bancária em um alvo proeminente nas redes sociais.
“A metodologia de operação do ecossistema político identificado com a extrema-direita nos aplicativos de troca de mensagens baseia-se na identificação e aproveitamento de aberturas de janelas de oportunidade”, analisou Lucas Cividanes, da Palver. Ele complementou que “as narrativas desenvolvidas buscam consistentemente extrair vantagem de eventos políticos que possuem a capacidade de explorar algum temor ou insegurança difusos e preexistentes na sociedade. A isso, soma-se, então, uma camada de elementos conspiratórios. Poderíamos, portanto, classificá-lo como uma ‘tempestade perfeita’, contudo, há uma estratégia e um método por trás de como esses cenários são localizados e explorados.” A decisão proferida pelo ministro Flávio Dino sobre a aplicação automática de legislações estrangeiras, conforme o levantamento da Palver, impulsionou de maneira considerável a intensidade das menções ao Banco do Brasil nas redes sociais.

Imagem: bbc.com
O auge das menções ocorreu no dia 21 de agosto, quando se registrou uma frequência de 120 mensagens sobre o banco para cada grupo de 100 mil. A título de comparação, a média histórica de menções relativas ao ex-presidente “Bolsonaro” é de aproximadamente 300 mensagens por grupo de 100 mil. Durante o período analisado pela Palver, compreendido entre 28 de julho e 26 de agosto, verificou-se que 53% das mensagens identificadas nos grupos de mensagens manifestavam-se favoravelmente às sanções impostas ao banco, enquanto 30% apresentavam-se em defesa da instituição financeira.
Advogados e parlamentares entre os perfis identificados
Uma das mensagens que foram incluídas pela Advocacia-Geral da União na notícia-crime é atribuída ao advogado Jeffrey Chiquini, que compartilhou um conteúdo em uma plataforma de mídia social com o seguinte enunciado: “Meu conselho a você que tem conta no Banco do Brasil: tire seu dinheiro de lá”. Esse tipo de recomendação foi largamente replicado por diversos canais e perfis vinculados à direita nas redes sociais, o que levou a própria instituição bancária a tomar as providências cabíveis.
Lucas Cividanes, da Palver, detalhou que a proliferação viral de uma mensagem não se manifesta exclusivamente através de um processo “de cima para baixo”, ou seja, como uma criação direta de figuras influentes de grande projeção. “São, com frequência, o produto de uma série de tentativas e erros”, explicou. Ele continuou afirmando que “o fato incontestável é que, uma vez que uma narrativa adquire ressonância e se consolida, estabelece-se uma convergência de atenção para aquele tópico específico. Muitas vezes, o elemento desencadeador são o que se denominam ‘apitos de cachorro’, emitidos por esses importantes empreendedores no âmbito da economia da atenção”.
De acordo com a AGU, o documento oficial através do qual o Banco do Brasil informou quais eram os perfis digitais envolvidos na campanha de mensagens foi encaminhado à Polícia Federal como parte integrante da notícia-crime. Entre os perfis destacados pelo Banco do Brasil por supostamente “propagar a desordem financeira no País”, além do advogado Jeffrey Chiquini, foram apontados os nomes dos deputados federais Gustavo Gayer (PL-GO) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Até o momento de redação, a imprensa não havia obtido retorno dos parlamentares contatados.
O advogado Jeffrey Chiquini, por sua vez, declarou que sua manifestação visava, na verdade, à “realocação de investimentos em ações, uma vez que, devido à insegurança jurídica, o investimento se tornaria imprevisível.” Segundo Chiquini, “um conselho sobre investimentos em ações é algo legítimo e todo investidor o pratica.” O advogado complementou ainda sua argumentação citando a Lei Magnitsky, pontuando que ela é explícita: “bancos que se propõem a resguardar indivíduos sancionados estão igualmente sujeitos a sanções”. Atualmente, a mensagem destacada pela AGU não pode ser mais encontrada no perfil do advogado na rede social mencionada.
Em comunicado oficial à imprensa, a AGU reiterou que “ao difundir mensagens que fomentam uma corrida bancária, instigando a retirada de capital dos bancos, perfis em plataformas de redes sociais demonstram uma intenção evidente de causar tumulto e desorganização no sistema financeiro nacional.” De acordo com a representação, a “coordenação de ataques” denota uma intenção política subjacente, cujo objetivo primordial é contrapor a opinião pública às ações e à integridade do Supremo Tribunal Federal (STF).
Estratégias de contenção e reações oficiais
O levantamento minucioso realizado pela empresa Palver revelou que as menções negativas e os comentários críticos direcionados ao Banco do Brasil iniciaram um processo de declínio já em 22 de agosto. Neste mesmo dia, o Banco do Brasil emitiu um comunicado público informando que estava “acompanhando o surgimento de publicações falsas e maliciosas que visavam à disseminação de informações inverídicas nas plataformas de redes sociais”.
A nota da instituição também afirmava de maneira categórica: “Qualquer declaração de caráter enganoso ou inverídico, que tenha como propósito lesar a imagem do Banco do Brasil, não será tolerada. A instituição tomará todas as medidas legais pertinentes e cabíveis para salvaguardar sua reputação, assim como proteger seus clientes e colaboradores”. Coincidindo com esta data, a Advocacia-Geral da União realizou o encaminhamento da notícia-crime à Polícia Federal, tornando público o fato à imprensa na segunda-feira subsequente, 25 de agosto.
O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também abordou a questão prontamente. Em uma entrevista concedida à TV GGN, ele declarou enfaticamente que “tem se observado um padrão de ataque ao Banco do Brasil perpetrado por grupos de apoiadores do ex-presidente bolsonaristas nas redes sociais, instigando ativamente a retirada de valores do banco.”
Os ataques coordenados ao Banco do Brasil mobilizaram igualmente entidades representativas, como sindicatos, e a categoria dos bancários. Na quarta-feira, 27 de agosto, em frente à sede da instituição financeira na Avenida Paulista, em São Paulo, um grupo de bancários realizou um pequeno ato de protesto. Os manifestantes exibiam cartazes com dizeres como “BB é bom para o Brasil” e “Defender o Banco do Brasil é defender a soberania nacional”. Durante a manifestação, Ana Lúcia Ramos, que ocupa o cargo de secretária-geral da Federação dos Bancários, declarou: “Nosso objetivo é conscientizar a população de que o Banco do Brasil deve pautar-se pelas leis brasileiras, e não pelas normativas dos Estados Unidos. As questões relativas aos EUA serão tratadas por bancos americanos. Aqui, nossa instituição acatará nossas próprias leis”.
O método adotado para conter a atmosfera de hostilidade e os ataques virtuais dirigidos ao Banco do Brasil apresentou características distintas em comparação com outra crise que havia afetado o sistema financeiro nacional em janeiro: o episódio relacionado ao Pix. Naquela ocasião, o governo federal se viu compelido a revogar uma nova regulamentação implementada pela Receita Federal, que dizia respeito ao monitoramento das transações efetuadas via Pix. A revogação do ato normativo, conforme explicado pela Receita, ocorreu “devido à proliferação de distorções e de informações falsas sobre a medida”, as quais propagaram a inverdade de que o Pix seria alvo de taxação.
Na quinta-feira, 28 de agosto, em meio à eclosão de operações destinadas a desmantelar um suposto esquema financeiro empregado pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), o ministro Haddad fez uma declaração significativa. Ele afirmou que a retração do governo em relação à política do Pix, em janeiro, acarretou um atraso na intensificação da fiscalização sobre as empresas de tecnologia financeira, ou fintechs. Essas empresas são frequentemente apontadas como componentes essenciais na movimentação e lavagem de recursos provenientes de atividades criminosas do crime organizado. A situação em torno do Banco do Brasil demonstrou uma ação mais direta e coordenada por parte das autoridades e da própria instituição para salvaguardar a imagem e a estabilidade financeira.
Com informações de BBC News Brasil
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