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Em um evento carregado de simbolismo e tensão política, um ex-prisioneiro de guerra norte-coreano de 95 anos tentou cruzar a fronteira para o Norte, seu país de origem, na manhã de um dia quente de agosto. Ahn Hak-sop, que viveu grande parte de sua existência na Coreia do Sul após ser capturado em 1953, expressou o desejo de ter seu corpo sepultado na nação onde nasceu. O acontecimento mobilizou uma multidão considerável na estação de Imjingang, ponto final da linha de metrô de Seul e a localidade mais próxima do território norte-coreano.
Dezenas de ativistas e oficiais policiais convergiram suas atenções para Ahn, que empreendeu o que ele denominou sua “viagem final”. Seu objetivo declarado era simples: retornar ao Norte para morrer e ser enterrado lá. Contudo, suas intenções foram frustradas. Ahn foi impedido de prosseguir com a travessia, conforme as expectativas. O governo sul-coreano justificou o veto à passagem, alegando não dispor de tempo hábil para concluir os trâmites administrativos necessários. Apesar da barreira, Ahn conseguiu se aproximar ao máximo possível da fronteira que divide a península coreana.
A condição física debilitada de Ahn Hak-sop, resultado de um edema pulmonar, impedia-o de realizar a caminhada de cerca de trinta minutos que separa a estação da Ponte da Unificação, também conhecida como Tongil Dae-gyo. Esta ponte é um dos raros acessos físicos que ligam a Coreia do Sul ao território norte-coreano. Para superar a dificuldade, Ahn desembarcou do veículo que o transportava a aproximadamente duzentos metros da ponte. Dali, ele concluiu o restante do percurso a pé, contando com o apoio de duas pessoas.
O retorno de Ahn após a tentativa de travessia apresentou uma cena que se destacou na paisagem sul-coreana: ele empunhava uma bandeira norte-coreana, uma imagem pouco usual e considerada desconcertante na região. Dirigindo-se aos jornalistas presentes e à equipe de voluntários que haviam se reunido para lhe oferecer suporte, Ahn declarou sua motivação. “Só quero que meu corpo descanse em uma terra verdadeiramente independente”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Uma terra livre do imperialismo”.
A Trajetória de Vida e a Guerra
Ahn Hak-sop contava 23 anos de idade quando foi detido por forças sul-coreanas em abril de 1953, pouco antes da assinatura do armistício que pôs fim às hostilidades da Guerra da Coreia. Sua história militar havia começado três anos antes da captura. Ele ainda cursava o ensino médio quando o então líder norte-coreano, Kim Il-sung, ordenou o ataque à Coreia do Sul em 1950. Kim, movido pelo desejo de reunificar as duas Coreias, conclamou seus compatriotas, alegando que foi o Sul quem iniciou o conflito.
Ahn estava entre os cidadãos do Norte que acreditaram fervorosamente na versão de Kim Il-sung. Em 1952, ele se alistou voluntariamente no Exército Popular da Coreia do Norte, assumindo a função de oficial de ligação. Em breve, foi designado para uma unidade que seria enviada para operar em território sul-coreano, culminando em sua captura e subsequente condenação. Ainda em 1953, ano de sua prisão, Ahn foi sentenciado à prisão perpétua. Mais de quarenta e dois anos após a imposição da pena, ele obteve a liberdade graças a um indulto especial, concedido durante o Dia da Independência da Coreia.
Durante sua detenção, e posteriormente na sociedade, Ahn Hak-sop, assim como diversos outros prisioneiros norte-coreanos, foi estigmatizado com o rótulo de “cabeça vermelha”. Essa designação se referia às suas profundas simpatias pelo ideário comunista. Tal rótulo impôs a Ahn severas dificuldades em sua vida no Sul, dificultando significativamente a obtenção de um emprego compatível. Em uma entrevista concedida à BBC em julho, Ahn descreveu esse período como desafiador e repleto de adversidades.
De acordo com Ahn, o apoio inicial do governo sul-coreano foi mínimo, e ele foi mantido sob vigilância por agentes durante um longo período. Ele constituiu família, casou-se e adotou uma criança, mas, apesar desses marcos pessoais, nunca experimentou uma genuína sensação de pertencimento ou aceitação dentro daquela estrutura familiar ou social. Sua residência se estabeleceu em Gimpo, uma pequena cidade estrategicamente localizada, sendo a comunidade civil mais próxima da fronteira com o Norte. Contudo, em 2000, quando teve a oportunidade de retornar ao Norte, junto com dezenas de outros ex-prisioneiros que também manifestavam o desejo de volta, Ahn surpreendentemente declinou.
Naquela época, Ahn mantinha um otimismo cauteloso em relação à melhora das relações entre as duas Coreias. Ele nutria a esperança de que, em um futuro próximo, os cidadãos de ambos os lados pudessem transitar livremente entre os dois países. Sua decisão de permanecer no Sul, naquele momento, foi motivada por um receio distinto. Ele temia que seu retorno ao Norte pudesse ser interpretado como uma vitória para os interesses norte-americanos. “Naquela época, eles estavam pressionando para que os Estados Unidos governassem [no Sul]”, declarou Ahn. E acrescentou: “Se eu tivesse retornado ao Norte, teria me sentido como se estivesse entregando meu próprio quarto para os americanos, o desocupando. Minha consciência não permitiu isso.” A que ele se referia exatamente não foi esclarecido na fonte, para além dos crescentes laços e da aliança militar entre Seul e Washington, que asseguram proteção à Coreia do Sul contra potenciais agressões do Norte. Essa relação profunda com os Estados Unidos continua a ser uma fonte de profundo incômodo para Ahn Hak-sop, que jamais abandonou a crença na propaganda da família Kim. Segundo essa visão, o “imperialismo americano” seria o único obstáculo para a reunificação da península coreana, sustentando que o governo sul-coreano estaria subjugado aos Estados Unidos.
Origens e Convencções Inabaláveis
Ahn Hak-sop nasceu em 1930, no condado de Ganghwa, província de Gyeonggi. Sua infância transcorreu sob o domínio colonial japonês na península coreana. Ele era o filho caçula em uma família com três irmãos mais velhos e duas irmãs mais novas. O senso de patriotismo e resistência emergiu cedo em sua vida. Ahn recorda que seu avô se recusava a permitir que ele frequentasse a escola, sob a justificativa de que não queria que seu neto “se tornasse japonês”. Dessa forma, seus estudos iniciaram-se mais tarde do que o comum, somente após o falecimento do avô.
Em 1945, o Japão se rendeu, marcando o fim da Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, da colonização da Coreia. Nesse período, Ahn e um de seus irmãos, que haviam desertado do exército japonês, buscaram refúgio na casa de uma tia, localizada nas encostas do monte Mani, na ilha de Ganghwa. Aquele momento, contudo, não foi percebido por Ahn como uma genuína libertação. “Não foi uma libertação, e sim uma transferência do domínio colonial”, afirmou ele. Um panfleto que o informava dizia que a Coreia não seria verdadeiramente libertada, mas sim que uma administração militar americana seria imposta em seu lugar. O mesmo documento advertia sobre rigorosas punições sob a lei militar americana para qualquer violação.

Imagem: bbc.com
Em decorrência da disputa pela península coreana entre a União Soviética e os Estados Unidos, um acordo foi firmado para dividi-la. Os soviéticos estabeleceram controle sobre o Norte, enquanto os americanos assumiram o Sul, onde implementaram uma administração militar até 1948. Quando Kim Il-sung atacou em 1950, um governo sul-coreano já estava instituído. No entanto, Ahn, assim como muitos outros norte-coreanos, acreditava firmemente que o Sul havia sido o agressor inicial do conflito e que a aliança de Seul com Washington obstaculizava a tão desejada reunificação.
Mesmo após sua captura, Ahn Hak-sop recebeu múltiplas oportunidades de evitar a prisão ou de obter sua liberação. Ele foi instado a assinar documentos nos quais renunciaria ao Norte e à sua ideologia comunista, um processo que ele denominava “conversão”. Entretanto, ele recusou veementemente qualquer tentativa de coerção ideológica. “Como me recusei a assinar um juramento de conversão por escrito, tive que suportar humilhações, torturas e violências sem fim, dias repletos de vergonha e dor. Não há como descrever todo esse sofrimento com palavras”, relatou Ahn à multidão que se congregou perto da fronteira em agosto.
O governo sul-coreano nunca emitiu uma resposta direta a essa acusação específica de tortura por parte de Ahn. No entanto, em 2004, uma comissão especial criada pelo próprio governo reconheceu oficialmente a ocorrência de violência nas prisões do país durante o período pós-guerra. Posteriormente, em 2009, as denúncias detalhadas apresentadas por Ahn foram objeto de uma investigação aprofundada pela Comissão da Verdade e da Reconciliação da Coreia do Sul. Este órgão independente, dedicado à apuração de violações de direitos humanos historicamente cometidas, concluiu que, no caso de Ahn, houve um esforço deliberado e coercitivo para forçar sua conversão ideológica, processo que incluiu a aplicação de tortura. Na Coreia do Sul, já é há muito tempo amplamente reconhecido que os prisioneiros daquele período frequentemente sofriam violências nas penitenciárias.
“Quando recuperava a consciência, a primeira coisa que eu fazia era olhar para as minhas mãos, para ver se tinha tinta vermelha”, recordou Ahn em sua entrevista à BBC em julho. Essa prática da tinta vermelha nas mãos geralmente indicava que alguém havia forçado a impressão digital do prisioneiro em um juramento escrito de conversão ideológica, frequentemente enquanto estava desacordado. “Se não havia, eu pensava: ‘Não importa o que tenham feito, eu venci.’ E me sentia satisfeito”, concluiu Ahn, expressando sua resistência psicológica.
As Coreias Mudadas, as Convencções Constantes
Desde que Ahn Hak-sop deixou o Norte, o país passou por transformações significativas. Atualmente, o governo está nas mãos do neto de Kim Il-sung, instaurando uma ditadura isolada e que agora possui armamento nuclear. Embora o país seja economicamente mais rico do que em 1950, ainda é considerado uma das nações mais pobres do mundo. Ahn não esteve no Norte durante a devastadora fome da década de 1990, um período em que centenas de milhares de pessoas perderam a vida e dezenas de milhares empreenderam fugas perigosas em busca de sobrevivência e uma vida melhor.
Contudo, Ahn Hak-sop rejeita qualquer preocupação com violações de direitos humanos no Norte. Ele atribui a essas notícias uma parcialidade da imprensa, acusando-a de expor unicamente “o lado obscuro” do país. Em suas declarações, ele sustenta que a Coreia do Norte prospera e defende a decisão do regime de Kim de enviar tropas em apoio à Rússia em sua invasão da Ucrânia.
Da mesma forma, a Coreia do Sul também passou por mudanças profundas durante o período em que Ahn viveu ali. Anteriormente uma ditadura militar pobre, o país evoluiu para uma democracia próspera e poderosa no cenário internacional. A relação entre as duas Coreias tem sido marcada por uma série de altos e baixos, alternando entre períodos de aberta hostilidade e tentativas de reaproximação diplomática. No entanto, as convicções fundamentais de Ahn Hak-sop jamais se alteraram.
Ahn dedicou os últimos trinta anos de sua vida a protestar incansavelmente contra um país que, em sua visão, continua a exercer uma forma de colonização sobre a Coreia do Sul: os Estados Unidos. “Dizem que os humanos, diferente dos animais, têm dois tipos de vida. Uma é a vida biológica básica, em que falamos, comemos, fazemos nossas necessidades, dormimos. A segunda é a vida política, também chamada de vida social”, argumentou Ahn em sua entrevista de julho à BBC. E complementou: “Se um ser humano é privado de sua vida política, não se diferencia de um robô”. Finalizando seu desabafo e sua justaposição política: “Vivi sob domínio colonial japonês todos aqueles anos. Mas não quero ser enterrado sob o domínio colonial americano, nem depois de morto.”
Com informações de BBC News Brasil
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