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A decisão da Netflix de transformar “KPop Demon Hunters” em uma franquia, após o sucesso notável do primeiro filme, dependerá de uma estratégia meticulosamente planejada para replicar a ascensão surpreendente do título original. A plataforma de streaming já deu sinal verde para uma sequência, mas parte do êxito fenomenal do filme inicial, descrito como um “sleeper hit” ou sucesso inesperado, reside no fato de que sua popularidade não foi antecipada por ninguém, pegando o público e a própria indústria de surpresa. Este elemento da surpresa, ou da descoberta orgânica, é crucial para a trajetória de sucesso do filme e impõe um desafio considerável para sua continuidade como uma propriedade intelectual.
Desde o seu lançamento, “KPop Demon Hunters” conquistou o status de filme mais assistido já lançado pela Netflix, consolidando sua posição como um fenômeno da cultura pop global. A obra é um musical animado que narra a história de um trio de estrelas pop cuja missão é proteger a humanidade contra monstros. Embora a premissa de heróis musicais com poderes especiais para combater forças do mal possa soar familiar em certos aspectos, o filme se destaca por sua execução distinta, seu estilo visual moderno e uma abordagem artisticamente refrescante. Ele transcende narrativas similares com um toque infinitamente mais estilizado, apresentando uma estética vibrante e uma identidade visual marcante.
A trilha sonora do filme é outro ponto forte inegável, recheada de músicas que foram classificadas como “inesquecíveis” (“undeniable bangers” no original). Estas composições não apenas servem como pano de fundo para as cenas de ação, mas também as amplificam, infundindo energia e emoção em cada momento. Além disso, a música e a narrativa como um todo celebram a rica cultura coreana de maneira explícita, servindo como uma ode ao K-Pop e ao vasto universo artístico da Coreia do Sul. Um aspecto distintivo do projeto é o protagonismo feminino, que se destaca em um gênero onde a representação equilibrada ou centralizada em personagens femininas ainda é incomum em grandes produções de estúdios renomados, como a Sony Pictures Entertainment (SPE), que foi responsável pela produção do filme. A forma como “KPop Demon Hunters” coloca mulheres no centro da ação, empoderadas e ativas, marca um diferencial significativo.
O sucesso inesperado do filme, surgido aparentemente “do nada”, foi um componente fundamental de sua ascensão meteórica. Agora, com a Netflix planejando desenvolver as “Huntr/x girls”, as personagens principais, em estrelas de uma franquia por meio de uma sequência, a empresa de streaming reconhece a necessidade de uma estratégia profunda e cuidadosamente articulada. Replicar a magia inicial, impulsionada em grande parte pelo fator surpresa e pela descoberta orgânica dos espectadores, exigirá abordagens inovadoras e eficazes, considerando que a propriedade já é amplamente conhecida.
A posição vantajosa em que a Netflix se encontra hoje para capitalizar o sucesso de “KPop Demon Hunters” não teria sido possível sem um acordo estratégico firmado com a Sony Pictures Entertainment em 2021. Este acordo concedeu à Netflix os direitos exclusivos de streaming nos Estados Unidos para os principais longas-metragens da Sony, seguindo seus lançamentos teatrais e disponibilização para entretenimento doméstico. A natureza do acordo também permitia à Sony comercializar filmes diretamente para streaming com outras plataformas. No entanto, um detalhe crucial do pacto foi a concessão de “first-look rights” (direitos de primeira recusa ou de primeira visão) à Netflix para qualquer filme que a Sony pretendesse produzir ou licenciar especificamente para plataformas de streaming.
Essa cláusula de “first-look” implicava que a Netflix, atuando em co-desenvolvimento e sendo a distribuidora final desses projetos em parceria com a Sony, tinha prioridade. A empresa de streaming podia “reservar” projetos promissores do pipeline da SPE antes que a concorrência tivesse a chance de sequer fazer ofertas. “KPop Demon Hunters” se encaixou precisamente nesse critério; foi um dos filmes que a Netflix almejou para seu catálogo e sobre o qual exerceu seus direitos prioritários. O anúncio inicial do projeto ocorreu apenas um mês antes da formalização do acordo entre Netflix e Sony, demonstrando a celeridade e o interesse da Netflix na propriedade desde cedo.
Em condições normais, a Sony poderia ter mantido a exclusividade do filme para si mesma, optando por um lançamento tradicional nos cinemas. Essa rota teria posicionado o estúdio para arrecadar diretamente toda a receita de bilheteria gerada por “KPop Demon Hunters” de forma convencional. Contudo, é fundamental contextualizar que o ano de 2021 representou um cenário dramaticamente diferente para a indústria do entretenimento global. Conforme apontado por Matt Belloni da Puck, os cinemas em todo o mundo ainda enfrentavam fechamentos e restrições significativas devido à pandemia de COVID-19. Nesse ambiente, a Sony precisava urgentemente de fontes de receita alternativas que não dependessem exclusivamente da venda de ingressos de cinema.
O acordo com a Netflix, nesse contexto, ofereceu à Sony uma solução viável e segura. Ele permitiu que o estúdio continuasse a lançar novos filmes e a manter sua cadeia de produção em movimento, minimizando a necessidade de demissões em massa relacionadas à pandemia. Em troca dos direitos de “KPop Demon Hunters”, a Netflix não só arcou com todos os US$ 100 milhões dos custos de produção do filme, como também pagou uma taxa adicional de US$ 25 milhões à Sony. Com essa transação, a Netflix assegurou para si os direitos mais lucrativos associados ao filme, incluindo os valiosos direitos de merchandising, o que se mostraria uma decisão extremamente perspicaz diante do estrondoso sucesso posterior.
Embora hoje possa parecer um cenário irônico imaginar executivos da Sony expressando arrependimento enquanto a Netflix colhe a adulação por ter lançado um dos filmes mais aclamados do ano, a realidade é que não havia como prever o grau de sucesso que “KPop Demon Hunters” alcançaria. Todos os estúdios ambicionam incessantemente lançar grandes sucessos e serem percebidos como detentores de uma profunda compreensão do que atrai o público às salas de cinema e, mais recentemente, às plataformas de streaming. No entanto, identificar um futuro sucesso em suas fases iniciais é uma ciência inexata, muitas vezes complicada pelos gostos volúveis da audiência, pelo timing de lançamento e por uma miríade de outros fatores imprevisíveis que influenciam a recepção de uma obra.
O que se tornou razoavelmente claro sobre a crescente estrela de “KPop Demon Hunters” é que seu sucesso não foi instantâneo. Levou um certo período para que o filme começasse a ganhar uma tração significativa dentro do catálogo da Netflix. É plausível considerar que um esforço de marketing massivo da Sony, caso o filme tivesse seguido a rota de um lançamento cinematográfico tradicional, poderia ter catapultado o título diretamente para o topo das bilheterias. Entretanto, “KPop Demon Hunters” parece ser um exemplo emblemático de um filme que se beneficiou imensamente do atual momento de consumo de cultura pop. Vivemos em uma era em que muitas pessoas valorizam a descoberta pessoal de conteúdos que as surpreendem e apaixonam, e em seguida, apressam-se em compartilhar essas descobertas com o maior número possível de pessoas, muitas vezes através das redes sociais e do boca a boca digital.
A própria essência da surpresa e da inesperada ascensão parece ser um componente intrínseco de como “KPop Demon Hunters” se transformou no fenômeno que conhecemos hoje. No entanto, esse tipo de energia espontânea é notoriamente difícil de ser replicado intencionalmente. Por um lado, a propriedade “KPop Demon Hunters” agora é globalmente reconhecida e apreciada por uma vasta audiência. As músicas do filme, a vasta gama de produtos de merchandising (brinquedos, vestuário, etc.) e as inúmeras manifestações de fan art estão por toda parte, um testemunho claro do crescimento constante de sua audiência na Netflix desde seu lançamento em junho. Embora o entusiasmo em torno do filme ainda deva perdurar por um bom tempo, a Netflix reconhece que, quando (e se) esse ímpeto diminuir, será indispensável um plano robusto para reativar a base de fãs dedicada das “Huntr/x” em antecipação à sua sequência.
A plataforma de streaming já iniciou uma série de ações estratégicas para manter o entusiasmo em alta e capitalizar o momentum. Entre essas iniciativas, destacam-se as exibições cinematográficas com sessões de “sing-along”, permitindo que os fãs cantem junto com as canções icônicas do filme em um ambiente comunitário. Além disso, a Netflix está acelerando o desenvolvimento e lançamento de mercadorias oficiais, explorando todas as oportunidades de licenciamento para produtos relacionados ao universo do filme. Há poucas dúvidas de que a trilha sonora do filme voltará a ser proeminente e aclamada na próxima temporada de prêmios da indústria, dada a sua popularidade e qualidade reconhecidas. A Netflix, percebendo o potencial de “KPop Demon Hunters” como um pilar de seu catálogo de animação, tem posicionado o título como sua resposta potencial a sucessos massivos como “Frozen” da Disney. Nesse sentido, relatos indicam que a empresa está considerando a produção e o lançamento de um curta-metragem ambientado no mesmo universo. O objetivo seria preencher a lacuna entre o primeiro filme e a sequência completa, mantendo o público engajado e a história viva na mente dos espectadores enquanto aguardam o próximo capítulo da saga.
Uma lição fundamental que pode ser extraída dos lançamentos de “Frozen” (2013) e “Frozen 2” (2019) é que a Netflix não necessariamente precisa apressar o próximo capítulo da narrativa de “KPop Demon Hunters”. Apesar de uma espera de seis anos entre o primeiro filme e sua sequência, “Frozen 2” conquistou o título de filme de animação de maior sucesso de todos os tempos na época de seu lançamento, um recorde que mais tarde seria superado por “Ne Zha 2”. Esse precedente sugere que uma pausa bem planejada, utilizada para refinar a história, o roteiro e a produção, pode, na verdade, fortalecer a franquia e aumentar o entusiasmo do público. Se a Netflix souber jogar suas cartas corretamente, gerindo o hype e desenvolvendo um produto de alta qualidade sem pressa indevida, é possível que alcance um nível de sucesso e longevidade comparável para a saga de “KPop Demon Hunters”.
Com informações de The Verge

Imagem: Charles Pulliam via theverge.com
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