Israel ‘rebaixa’ status diplomático do Brasil em meio a tensões crescentes

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O Estado de Israel tomou a decisão de reduzir o nível de sua relação diplomática com a República Federativa do Brasil. Esta medida drástica segue um período de aparente silêncio por parte do governo brasileiro, que não se manifestou oficialmente sobre a proposta de um novo embaixador israelense no país. A informação foi veiculada inicialmente em uma reportagem detalhada do jornal israelense Haaretz, um veículo de imprensa respeitado na região.

De acordo com os detalhes levantados pela reportagem, o governo brasileiro teria se abstido de fornecer o consentimento formal, conhecido como “agrément”, à indicação de Gali Dagan para o cargo de embaixador. O “agrément” é uma formalidade essencial no protocolo diplomático internacional, representando a anuência de um país anfitrião para que um diplomata estrangeiro possa exercer suas funções em seu território. A ausência desta resposta por parte do Brasil foi interpretada por Israel como um impedimento para o avanço das relações.

A publicação do Haaretz ocorreu na última segunda-feira, 25 de agosto de 2025, conforme o horário local brasileiro. Já em Israel, a reportagem foi ao ar na terça-feira seguinte, 26 de agosto. Essa discrepância de horários entre as regiões geograficamente distintas marcou a divulgação da notícia que acendeu o alerta nos círculos diplomáticos de ambos os países.

Em um comunicado emitido ao jornal Haaretz, o Ministério das Relações Exteriores de Israel detalhou o desenrolar dos acontecimentos que levaram ao rebaixamento da relação. Segundo o ministério, o governo brasileiro “excepcionalmente” recusou um pedido de reunião formulado pelo Embaixador Dagan. Tal recusa, combinada com a falta de resposta ao agrément, foi o estopim para a subsequente decisão de Israel. “Após o Brasil, excepcionalmente, recusar-se a atender a um pedido de reunião do Embaixador Dagan, Israel retirou o pedido e as relações entre os países passaram a ser conduzidas em um nível diplomático inferior”, afirmou o ministério, delineando as consequências práticas da postura brasileira.

Ainda em sua declaração, o órgão diplomático israelense fez questão de salientar a continuidade de laços interpessoais, apesar do impasse governamental. “O ministério israelense acrescentou que continua mantendo contato próximo com os diversos círculos de amigos que Israel mantém no Brasil”, destacando uma aparente distinção entre a frieza nas relações oficiais e a preservação de elos com segmentos da sociedade brasileira que mantêm uma postura de amizade em relação a Israel. Esta nuance na comunicação indica uma tentativa de mitigar o impacto total do rebaixamento diplomático sobre a percepção pública e as conexões sociais e culturais existentes entre os dois países.

Em resposta à solicitação da BBC News Brasil, que buscou posicionamentos oficiais tanto do governo israelense quanto do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, conhecido como Itamaraty, foi indicado que o texto original da notícia seria atualizado assim que uma resposta fosse obtida, sublinhando o caráter contínuo da apuração jornalística sobre o tema.

Representando o ponto de vista brasileiro, Celso Amorim, atual assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, pronunciou-se à TV Globo sobre a situação. Amorim refutou a ideia de que o Brasil teria “vetado” o nome do diplomata israelense, mas confirmou a ausência de resposta ao pedido de agrément. “Não houve veto. Pediram um agrément e não demos. Não respondemos. Simplesmente não demos. Eles entenderam e desistiram”, declarou Amorim, buscando clarificar a postura oficial de Brasília.

O assessor presidencial, que desempenha um papel central na definição da política externa brasileira, explicou o que, para o governo federal, teria motivado a não concessão do agrément. Ele aludiu a um incidente anterior, descrevendo-o como uma “humilhação pública” sofrida pelo então embaixador do Brasil em Israel, Frederico Meyer. Amorim expressou o sentimento de ultraje ao indagar retoricamente: “Eles humilharam nosso embaixador lá, uma humilhação pública. Depois daquilo, o que eles queriam?”. Esta afirmação sugere que a recente decisão brasileira está intrinsecamente ligada a um episódio diplomático anterior, marcando uma continuidade na percepção de tratamento recebido por parte de Israel.

O incidente a que Celso Amorim fazia referência ocorreu em fevereiro de 2024 e envolveu o diplomata Frederico Meyer. Naquele momento, Meyer foi convidado a participar de um evento no Museu do Holocausto. A ocasião, que deveria ser um momento de memória e respeito, transformou-se em palco para um embate diplomático de grande visibilidade. Durante o evento, o embaixador brasileiro ouviu publicamente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sido declarado “persona non grata” no Estado de Israel e, portanto, não era mais bem-vindo no país. Tal declaração foi vista pelo governo brasileiro como um ultraje direto, não apenas ao presidente, mas ao país como um todo.

A raíz dessa grave declaração pública de “persona non grata” por parte de Israel foi uma controvérsia anterior, na qual o Presidente Lula havia comparado a intensa ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza com o Holocausto, período histórico em que milhões de judeus foram sistematicamente assassinados e perseguidos pelo regime nazista. A comparação gerou forte condenação por parte de Israel, incluindo uma manifestação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que afirmou na época que a fala de Lula havia “ultrapassado a linha vermelha”, sinalizando a gravidade com que o governo israelense encarou as palavras do líder brasileiro. A percepção do governo brasileiro foi a de que a situação imposta a Meyer naquele contexto configurou um claro insulto diplomático e uma afronta à dignidade do país. Em resposta direta a esse acontecimento, em maio de 2024, o Presidente Lula optou por retirar Frederico Meyer de seu posto em Israel, o que deixou o Brasil sem um representante diplomático de alto nível em Tel Aviv.

Ainda na entrevista à TV Globo, Amorim fez questão de pontuar a essência da postura brasileira em relação à nação judaica. Ele assegurou que o Brasil não mantém uma posição de inimizade para com Israel como um Estado, mas sim se opõe veementemente às políticas adotadas pela atual administração de Benjamin Netanyahu. “Nós queremos ter uma boa relação com Israel. Mas não podemos aceitar um genocídio, que é o que está acontecendo. É uma barbaridade. Nós não somos contra Israel. Somos contra o que o governo Netanyahu está fazendo”, explicitou o assessor, traçando uma linha divisória clara entre o Estado e a atual liderança política israelense e justificando a conduta do governo brasileiro com base em princípios humanitários.

Acusações e escalada de tensões diplomáticas

Em mais um episódio da escalada diplomática entre os dois países, nesta terça-feira, 26 de agosto, Israel Katz, que ocupa a pasta de Ministro da Defesa de Israel, proferiu duras críticas contra o presidente brasileiro. Katz se referiu a Lula como um “antissemita declarado e apoiador do Hamas”, adjetivos que reforçam a intensidade do desentendimento entre as nações. O estopim para as novas acusações de Katz foi a retirada do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), um movimento ocorrido em julho deste mesmo ano. A IHRA foi estabelecida com o propósito de combater o antissemitismo globalmente e preservar a memória das vítimas do Holocausto, sendo uma iniciativa crucial para a comunidade internacional engajada na proteção dos direitos humanos e na educação sobre um dos maiores genocídios da história.

A decisão brasileira de desvincular-se da IHRA, conforme comunicado pelo Itamaraty, foi fundamentada na alegação de que a adesão do país à aliança teria sido realizada de “maneira inadequada” durante a gestão presidencial de Jair Bolsonaro (PL), indicando uma revisão das políticas externas da administração atual em relação a compromissos anteriores.

Israel ‘rebaixa’ status diplomático do Brasil em meio a tensões crescentes - Imagem do artigo original

Imagem: bbc.com

As manifestações de Israel Katz foram além das acusações diretas. O ministro israelense, utilizando a plataforma X (anteriormente conhecida como Twitter), intensificou a retórica, associando publicamente o presidente brasileiro ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Katz chegou a publicar uma imagem, gerada por inteligência artificial, que retratava Lula sendo controlado como uma marionete por Khamenei. Esta representação gráfica foi uma forte crítica, visualmente imputando uma dependência ou alinhamento ideológico entre os dois líderes. Em seu posicionamento, Katz alegou que a medida de Lula de sair da IHRA posiciona o Brasil “ao lado de regimes como o Irã, que nega abertamente o Holocausto e ameaça destruir o Estado de Israel”, configurando uma grave acusação de alinhamento com nações que professam uma retórica anti-israelense e revisionista em relação aos fatos históricos do Holocausto.

Com um tom veemente, o ministro israelense de Defesa, Israel Katz, encerrou sua mensagem na rede social X com uma advertência e uma previsão. Escrevendo em português, Katz declarou: “Como Ministro da Defesa de Israel, afirmo: saberemos nos defender contra o eixo do mal do islamismo radical, mesmo sem a ajuda de Lula e seus aliados”, manifestando uma postura de auto-suficiência e resiliência diante do que ele percebe como adversidades políticas e ideológicas. Em uma demonstração de frustração, mas também de esperança, Katz expressou um sentimento de pesar em relação à liderança brasileira atual: “Vergonha para o maravilhoso povo brasileiro e para os muitos amigos de Israel no Brasil que este seja o seu presidente. Dias melhores ainda virão para a relação entre nossos países”, completou, dirigindo-se diretamente à população brasileira e sugerindo um desejo de futura renovação nas relações bilaterais, dissociado da gestão atual.

Em uma sucessão de eventos que demonstra a complexidade da diplomacia brasileira e o aguçamento de suas tensões internacionais, o governo do Brasil, apenas dois dias antes de sua saída formal da IHRA em julho, já havia anunciado um movimento de alto impacto na cena jurídica internacional. Naquele momento, o Brasil informou sua intenção de aderir a uma ação judicial em andamento na Corte Internacional de Justiça (CIJ). Esta ação específica acusa o Estado de Israel de cometer genocídio na Faixa de Gaza, adicionando uma camada substancial de discordância e crítica à conduta israelense perante o cenário global, especialmente no que tange ao conflito palestino-israelense e suas implicações humanitárias e de direitos internacionais.

O cenário geopolítico e as repercussões regionais

A conjuntura atual das relações diplomáticas entre Israel e Brasil ocorre em meio à complexa e contínua guerra em Gaza. Este conflito foi deflagrado após uma série de ataques massivos, coordenados pelo grupo palestino Hamas, contra Israel, ocorridos em 7 de outubro. Naquela fatídica ocasião, aproximadamente 1.200 pessoas foram mortas em território israelense, e um número significativo, cerca de 251 indivíduos, foi capturado e levado para Gaza como reféns, marcando um dos piores dias na história de Israel em termos de perdas humanas e de segurança.

Em resposta a esses ataques, Israel iniciou uma ampla e duradoura ofensiva militar na Faixa de Gaza, que se estende até o presente momento. As operações militares israelenses, em curso desde o evento inicial, resultaram na morte de mais de 62.744 pessoas no território palestino, de acordo com os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde, administrado pelo Hamas, e que são considerados confiáveis pelas Nações Unidas. Esse balanço humanitário ressalta a magnitude e a intensidade do conflito e suas devastadoras consequências para a população civil na região.

Simultaneamente às crescentes tensões com Israel, o Brasil também enfrenta uma grave e multidimensional crise diplomática com os Estados Unidos, uma nação que figura como o principal aliado de Israel, especialmente no que tange à ofensiva militar em curso em Gaza. As relações entre Brasília e Washington têm sofrido um acentuado processo de deterioração, particularmente a partir do mês de julho, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a implementação de tarifas de 50% sobre uma série de produtos brasileiros exportados para o mercado estadunidense, impactando diretamente o comércio bilateral e as expectativas econômicas de ambos os países.

A escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos não se restringiu apenas ao campo comercial. O governo americano avançou com a aplicação de sanções a distintas autoridades brasileiras. Entre os nomes alvo de tais medidas esteve Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). As sanções foram impostas com base na Lei Global Magnitsky, uma legislação dos EUA que autoriza o governo a sancionar estrangeiros por violações de direitos humanos ou por atos de corrupção significativa, o que intensificou o ambiente de animosidade e crítica mútua entre os dois países.

No início do corrente ano, o presidente Donald Trump havia esboçado publicamente um plano audacioso e controverso para o Oriente Médio, que contemplava a ideia de os Estados Unidos assumirem o controle da Faixa de Gaza e promoverem o reassentamento da população palestina em um local distinto. Tal proposta, de grande envergadura geopolítica, dependeria essencialmente da colaboração e apoio dos estados árabes. Contudo, foi prontamente rejeitada por esses países, que não demonstraram receptividade à iniciativa americana, evidenciando as profundas divergências e complexidades na busca por soluções para o conflito na região. Os EUA também exerceram um papel de apoio a Israel durante os ataques contra o Irã, em junho, consolidando sua aliança estratégica no cenário do Oriente Médio.

A proximidade entre o presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem sido um traço constante e marcante de suas relações bilaterais. Em julho, Netanyahu chegou a expressar publicamente seu reconhecimento à postura de Trump, indicando que consideraria indicar o presidente dos EUA para o Prêmio Nobel da Paz, um gesto que sublinha a sólida aliança e o alinhamento ideológico e político entre os dois líderes e suas respectivas administrações, reforçando o cenário de apoio irrestrito dos Estados Unidos à política israelense em meio aos atuais impasses internacionais.

Com informações de BBC News Brasil


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