Produtores de Cacau da Bahia Lamentam Queda Repentina de Preços Após Euforia por Recorde Global

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Um cenário de grande expectativa e otimismo, desencadeado por preços globais recordes do cacau, rapidamente se transformou em desânimo para pequenos agricultores no sul da Bahia. No final do ano passado, a valorização inédita da matéria-prima despertou planos de modernização e investimento, mas a recente desvalorização brusca já força produtores a reverem suas iniciativas. Em regiões como Ituberá e Igrapiúna, onde cooperativas e fazendas de cacau estão concentradas na Costa do Dendê, queixas sobre os valores pagos pela arroba do produto (equivalente a 15 kg) tornaram-se recorrentes no início de agosto.

A euforia anterior havia sido alimentada por uma escassez global do cacau, impulsionada por uma safra deficiente nas principais regiões produtoras na África. Esse pico de preços trouxe uma rara janela de oportunidade para o sul da Bahia, área com uma rica história na cacauicultura brasileira. A região estava em processo de reestruturação ao longo das últimas décadas, após ser duramente atingida pela praga da vassoura-de-bruxa nos anos 1980 e 1990, que devastou muitas lavouras. Produtores como José Luís Fagundes, de Igrapiúna, resumem a sensação com a recente baixa: “Quando todo mundo se animou, veio um banho de água fria.”

Volatilidade do Mercado Internacional Atinge Produtor Local

O recuo nos preços do cacau no mercado internacional se iniciou no final de 2024, seguindo uma dinâmica comum do mercado. A cotação da commodity na bolsa de Nova York, referência para a formação de preços no Brasil, diminuiu principalmente devido à perspectiva de uma recuperação das safras em Gana e na Costa do Marfim, os dois maiores produtores mundiais. Contudo, o impacto no Brasil foi ainda mais severo para os pequenos agricultores, agravado por particularidades do mercado interno.

No Brasil, a ponta da cadeia produtiva, representada pelos pequenos produtores, já sente que a elevação do preço do chocolate para o consumidor final não se traduz necessariamente em maior remuneração para quem planta. Fatores como a diminuição dos valores pagos pelas poucas empresas multinacionais que dominam a compra e processamento no Brasil, somados às incertezas da indústria frente às tarifas que Donald Trump propôs aplicar sobre produtos brasileiros, criaram um cenário desafiador. A Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC), que representa cerca de 5 mil agricultores, calcula que, em agosto, o montante pago no Brasil pela arroba do cacau chegou a ser R$ 85 inferior ao que as cotações internacionais indicariam.

“As indústrias fazem o que querem na precificação interna”, criticou Vanuza Barroso, presidente da ANPC. Há uma percepção geral entre os produtores entrevistados pela BBC News Brasil de que as fábricas tendem a alinhar suas políticas de preços para baixo no Brasil, usando as incertezas de mercado como justificativa.

Indústria Processadora Se Defende e Cita Problemas de Demanda

Em resposta às críticas, a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), que engloba as grandes empresas do setor – a Cargill (EUA), a Barry Callebaut (Suíça) e a Olam/Ofi (Singapura) –, evitou comentar especificamente os preços praticados pelas suas associadas. A associação afirmou que os valores refletem as condições de mercado. Anna Paula Losi, presidente-executiva da AIPC, declarou que o mercado está vivendo um cenário de oferta e demanda mais equilibrado no momento da compra. Ela também mencionou que a indústria observa uma redução na demanda por produtos derivados de cacau. Com os preços elevados nos últimos anos, o consumo de chocolate diminuiu, e os fabricantes passaram a utilizar menos cacau na formulação de seus produtos, contribuindo para uma menor procura pela matéria-prima.

Consultadas pela BBC News Brasil sobre a precificação no mercado brasileiro, a Barry Callebaut declinou-se a comentar suas relações comerciais, enquanto Cargill e Ofi não apresentaram resposta.

Tarifas Americanas Agravam Situação

Além das dinâmicas internas de preço, o setor cacaueiro brasileiro projeta perdas de R$ 180 milhões até o fim de 2025, em decorrência das tarifas de 50% aplicadas pelos Estados Unidos. Embora o cacau, por não ser produzido em território americano, pudesse ser isento, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, não conseguiu incluí-lo na lista de exceções do governo Trump. O processamento do cacau resulta em produtos como pó, licor e manteiga. A indústria brasileira exportou aos EUA aproximadamente US$ 72,6 milhões (equivalentes a R$ 397 milhões) em produtos derivados do cacau em 2024, representando 16% de seu mercado exportador. No primeiro semestre de 2025, antes da aplicação das tarifas, esse volume já estava em US$ 64 milhões (R$ 350 milhões), constituindo 20% do total de exportações.

A manteiga de cacau, produto com maior valor agregado e amplamente exportado para o mercado americano, é particularmente afetada. Sem a possibilidade de manter o volume de comércio com os EUA e com escassas alternativas para redirecionar essa manteiga para outros mercados, as fábricas antecipam uma diminuição da moagem de cacau nos próximos meses. Mercados como Chile e Argentina já têm suas demandas atendidas, e os EUA podem facilmente encontrar fontes alternativas para a manteiga de cacau.

Produtores Interrompem Planos de Crescimento

Na prática, a súbita queda no preço do cacau no Brasil resultou na interrupção dos planos de investimentos e modernização que agricultores baianos haviam planejado. Josenilda Silva, uma pequena produtora em Jitaúna (BA), exemplifica essa realidade. Com os valores mais altos recebidos no ano anterior, ela pretendia adquirir novos equipamentos, fertilizantes e até mesmo sistemas de energia solar para impulsionar a produção. Todos esses planos, porém, foram adiados. “Os pequenos agricultores são os que mais trabalham, mas o retorno nem sempre é leal com a gente”, lamentou Dona Jô, como é conhecida. Desde que retornou à Bahia em 2017 para se dedicar ao cultivo de cacau, ela afirma que este era o primeiro período em que conseguia obter um retorno financeiro significativo, capaz de gerar renda e permitir investimentos. A frustração nos últimos meses, portanto, tem sido profunda na região.

Adilson Reis, analista e produtor que fundou o portal Mercado do Cacau, monitorando os preços da commodity, pondera que, ao considerar a média de preços das últimas décadas, a remuneração atual do produtor pode não ser avaliada como “ruim”. Contudo, em uma região que ainda se reergue da devastação da vassoura-de-bruxa nas décadas de 1980 e 1990 – e onde a agricultura, em sua maioria familiar, carece de recursos – a “maior dor é ver o ciclo de reconstrução se interromper”. Essa praga é considerada a maior da história da cacauicultura brasileira, e seus impactos ainda hoje reverberam na renda e no acesso à educação dos municípios afetados.

Em Igrapiúna, José Luís Fagundes havia planejado plantar uma nova área e adquirido um trator. No entanto, a incerteza futura o levou a suspender os investimentos. “A gente fica muito inseguro de tomar decisão no ânimo de um preço alto”, expressou Fagundes. Ele questionou: “Vou me endividar agora para fazer uma renovação de uma área? Será que os preços não vão cair novamente? Não há credibilidade. Não temos relação de confiança com a cadeia produtiva do cacau.”

Assimetria de Poder e a ‘Bolsa Futura’

Produtores percebem uma desvantagem permanente nas negociações com as multinacionais, que adquirem quase toda a produção. Conforme a AIPC, aproximadamente 70% da produção brasileira vem de pequenos e médios agricultores. “É uma cadeia com poucos compradores e muitos vendedores. E as indústrias são representantes do exterior. Numa queda de braço, vai para elas”, analisou Mônica Pires, professora de economia da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus, e pesquisadora de cacau.

Produtores de Cacau da Bahia Lamentam Queda Repentina de Preços Após Euforia por Recorde Global - Imagem do artigo original

Imagem: bbc.com

No início de agosto, relatos de produtores indicaram que a indústria passou, abruptamente, a balizar os valores de compra com base nas cotações da bolsa futura de março de 2026. Na prática, essa ação promove um “deságio”, termo que significa o produtor receber um valor inferior ao preço que seu produto alcançaria, teoricamente, no mercado global. A ANPC apontou que, em agosto, a cotação futura de março de 2026 chegou a ser US$ 1 mil por tonelada abaixo das cotações mais recentes do mercado.

“As indústrias trabalham muito alinhadas, com pouca margem de diferença entre si”, observou Luis Fagundes. A presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi, explicou que a prática da bolsa futura se baseia em análises das expectativas de mercado, onde “é uma relação onde todo mundo pondera risco”. Conforme a lógica industrial, Losi detalhou: “se hoje o cacau na bolsa está tanto, mas aqui no mercado brasileiro a demanda por esse cacau está baixa, a indústria pode esperar mais seis meses para comprar”. No entanto, se o produtor necessitar vender imediatamente, a indústria negociaria um valor inferior para compensar os riscos de estocagem e seguros assumidos. Todavia, a realidade mostra que poucos produtores têm a capacidade de barganhar ou adiar a venda esperando uma valorização futura da indústria.

“Como nossa base econômica é frágil, o produtor não consegue ficar segurando para vender e assim fazer pressão na indústria. Se bate a fome, tem que vender. O ideal seria não entregar até eles mudarem, mas não existe isso”, disse Fagundes. O resultado dessa assimetria, na visão do produtor, é uma produção cacaueira predominantemente de subsistência na Bahia, caracterizada pela baixa organização entre agricultores e lucratividade limitada.

Este panorama não se restringe à Bahia, que, juntamente com o Pará, é responsável por mais de 90% da produção nacional. Apesar do considerável potencial econômico do cacau, muitas das regiões produtoras globais permanecem empobrecidas, com agricultores dependentes da complexa estrutura internacional de comercialização do produto.

Setor Industrial Clama por Cenário Delicado

A compra de cacau de produtores brasileiros é efetuada por grandes moageiras diretamente ou por meio de cooperativas, associações e atravessadores. As amêndoas são então industrializadas e transformadas em pó, licor ou manteiga, tanto para consumo nacional quanto para exportação. Esses derivados são posteriormente comercializados para a indústria alimentícia, que os utiliza na fabricação de chocolates e biscoitos, entre outros produtos.

Segundo a indústria, a produção atual de cacau no Brasil é insuficiente para atender à demanda interna, especialmente a de pó, e para manter as fábricas operando em sua capacidade total. A região de Ilhéus, que abriga um grande parque fabril como legado de tempos áureos, resulta em que a indústria importe cacau da África com taxa zero, utilizando o sistema de drawback. Esse sistema estabelece que todas as amêndoas importadas devem ser obrigatoriamente exportadas como produtos de valor agregado.

A AIPC informou que a ociosidade das fábricas brasileiras já é de 12% e poderá atingir 18% ainda este ano, especialmente em função das tarifas impostas pelos Estados Unidos. Produtores, por sua vez, argumentam que a necessidade de importar amêndoas da África demonstra que o cacau brasileiro deveria ser mais valorizado, sobretudo considerando o risco de introduzir pragas africanas no Brasil, tema de uma campanha da ANPC contra importações.

A AIPC rebate que a diminuição da moagem se deve não apenas à falta de cacau nacional, mas também à redução da demanda global, cenário que as tarifas americanas tendem a agravar. Anna Paula Losi explica: “Quando eu prenso a amêndoa, a gente extrai o pó [direcionado ao mercado nacional] e a manteiga ao mesmo tempo. Se eu não consigo exportar a manteiga, vou ter que moer menos, porque não tenho como extrair só pó. A gente pode ter que começar a importar mais pó para o Brasil”.

Conforme a AIPC, a manteiga que era destinada aos EUA dificilmente encontrará outros mercados, dado que países como Chile e Argentina já têm suas demandas supridas, e os EUA podem facilmente encontrar outros fornecedores. Essa “crise de demanda”, na análise de Adilson Reis, do Mercado do Cacau, ocorreu porque, com o aumento expressivo no custo do cacau, a indústria chocolateira diminuiu as compras e adotou estratégias que resultaram em uma queda da qualidade do chocolate final. “Há um problema nesse ciclo rápido de crescimento de preço, porque virou uma matéria-prima muito cara”, disse Reis. No Brasil, essa queda no consumo foi mais acentuada devido à baixa resistência do consumidor brasileiro à elevação dos preços, conforme a AIPC.

Cacau: Uma Commodity Cada Vez Mais Volátil

Analistas apontam que as cotações do cacau na bolsa dos EUA têm demonstrado uma volatilidade “nunca vista antes”, atribuída à crescente participação de fundos de investimento nos últimos anos. Esse fator teria gerado um descompasso entre as cotações internacionais e os valores considerados vantajosos pela indústria no Brasil. Para Losi, da AIPC, o valor elevado que o cacau atingiu no passado “era insustentável para toda a cadeia. Era positivo para o produtor, mas chegaria ao ponto de inviabilizar o consumo final”.

O descolamento da realidade brasileira em relação à bolsa internacional ocorre, segundo ela, porque o Brasil representa apenas 4% do mercado global e, portanto, o que acontece no país não influencia significativamente a cotação. “O que influencia a bolsa é o que acontece na África”, concluiu. O preço global do cacau subiu a patamares tão altos que em Gana e na Costa do Marfim, os principais produtores, surgiu até um mercado de tráfico de cacau, comparado pelo Financial Times à situação da cocaína na Colômbia.

A AIPC também defende a promoção da venda direta dos produtores para a indústria, eliminando intermediários, e o incentivo a práticas de sustentabilidade, visando agregar valor ao cacau. No entanto, para produtores como José Luiz Fagundes, considerando as inúmeras crises já enfrentadas pelo setor, seria necessário um período mínimo de três anos com preços mais estáveis e favoráveis para que os cacauicultores conseguissem sair da “inércia” e impulsionar suas lavouras e negócios. Essa esperança, contudo, já começa a desvanecer diante do cenário atual.

Com informações de BBC News Brasil


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