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Em 30 de agosto de 1875, há aproximadamente 150 anos, a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi palco de um evento notável conhecido como Motim das Mulheres. Naquela ocasião, um contingente estimado em cerca de 300 mulheres da localidade irrompeu pelas ruas, expressando sua insatisfação de forma veemente contra um decreto imperial que visava regulamentar o recrutamento militar para as Forças Armadas brasileiras.
As participantes do movimento, munidas de pedras, facas, panelas e outros objetos domésticos, direcionaram suas ações primeiramente contra os editais de convocação que estavam afixados nas portas da igreja matriz da cidade. Em um ato de revolta simbólica e direta, esses documentos foram destruídos. Em seguida, o grupo avançou para a sede do jornal local, que operava com o nome de “O Mossoroense” e existiu entre os anos de 1872 e 2015. Na redação do periódico, onde se produzia material relacionado aos alistamentos, as mulheres invadiram o prédio e igualmente dilaceraram os editais de convocação lá encontrados.
A raiz dessa efervescência popular encontrava-se em um decreto imperial promulgado no mesmo ano de 1875, cujo objetivo era estabelecer regras claras para o alistamento militar tanto no Exército quanto na Marinha. Contudo, para as mulheres da época, essa medida ressoava com um pavor profundamente enraizado. A memória da Guerra do Paraguai, um conflito brutal que ocorreu entre 1864 e 1870 e resultou em milhares de mortes, estava ainda muito presente. Muitas dessas mulheres haviam perdido seus maridos e filhos naquele sangrento embate, tornando a ideia de novos recrutamentos insuportável.
A própria legislação em questão representava, na verdade, uma reação tardia às profundas cicatrizes que o conflito bélico havia deixado na estrutura do país. A experiência da Guerra do Paraguai evidenciou que o Brasil carecia de uma organização militar eficaz para enfrentar eventuais futuros confrontos. Assim, a regulamentação do alistamento de jovens surgiu como um método para assegurar que a nação pudesse dispor de um corpo de tropas treinadas e preparadas para eventualidades em campos de batalha.
O escritor e pesquisador Geraldo Maia do Nascimento, autor de obras como “Mossoró na Trilha da História”, contextualiza que o “motim foi um movimento, uma revolta das mulheres contra a obrigatoriedade do alistamento militar”. Segundo Nascimento, à época do episódio, a legislação imperial buscava preencher as lacunas deixadas pelos milhares de mortos na recente guerra. O temor era tanto que parte da opinião pública chegava a conjecturar que o Brasil poderia estar à beira de novos confrontos contra o Paraguai, agravando a rejeição ao decreto.
De maneira geral, a recepção da lei entre a população foi extremamente negativa. “Gerou uma insatisfação muito grande. A obrigatoriedade dos jovens a se alistarem foi mal interpretada”, comentou Nascimento em suas análises sobre o período. Este sentimento de descontentamento não se limitava a Mossoró, conforme registrado pelo historiador Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) em seu livro “Notas e Documentos para a História de Mossoró”.
Cascudo observa que 1875 representava uma fase de “intensa vibração partidária” no cenário político, em grande parte impulsionada pelo decreto, que era parte integrante de um esforço para “organizar” o Ministério da Guerra. Antes da promulgação oficial, houve uma espécie de sondagem governamental. Os presidentes de Províncias, que correspondiam aos atuais governadores, foram incumbidos de avaliar a receptividade da proposta junto à população, consultando, para tanto, juízes de paz locais. Na maioria dos casos, as respostas obtidas por essas observações iniciais se mostraram “tranquilizadoras”, mas, na perspectiva de Cascudo, eram resultados de “observações de superfície” e não refletiam o verdadeiro clamor popular, pois, como ele ressaltou, recrutamentos desse tipo historicamente configuravam “elemento poderoso de irritação coletiva”.
O historiador detalha que “no Rio Grande do Norte, agosto de 1875 trouxe vários protestos populares contra o decreto do recrutamento”. Cascudo registra outros incidentes na província: em Áries, em 1º de agosto, grupos de homens e mulheres, acompanhados por indígenas armados com facas e cacetes, invadiram a Igreja Matriz e danificaram livros, papéis e editais ligados ao recrutamento. Em Canguaretama, na mesma data, uma “malta exaltada” composta por mulheres e homens invadiu a igreja onde se processava o alistamento local, resultando em 16 feridos. Tumultos similares foram documentados também em Goianinha. Em todas essas manifestações, as mulheres foram descritas como “as mais animosas e vibrantes, defendendo os filhos, maridos e noivos”, assumindo uma posição de protagonismo na defesa de seus familiares.
O Motim das Mulheres de Mossoró, portanto, insere-se nesse “ciclo” de resistência popular. Cascudo menciona as pesquisas do professor Jerônimo Vingt-un Rosado Maia (1920-2005), que documentou um depoimento de Francisco Romão Filgueira. Este último, que tinha 15 anos em 1875, descreveu Ana Floriano como a líder da revolta, “tipo de mulher forte, olhos azuis, cabelos louros, estatura além do comum para seu sexo”. O depoente ainda narra: “No dia marcado, estavam umas 300 mulheres reunidas em Mossoró, porque as próprias Evas dos arrabaldes haviam aderido ao motim”.
O cortejo do grupo de mulheres seguiu até a Igreja de Santa Luzia, local que havia sido adaptado para os procedimentos de alistamento. Conforme o relato, os editais pregados nas portas da igreja foram arrancados e rasgados, e diversos livros também foram depredados. Na sequência, o grupo confrontou uma patrulha de policiais que havia sido destacada com a missão de “dominar a sedição”. Esse confronto evoluiu para um tumulto e uma luta entre os soldados e as mulheres, resultando em diversas feridas. A intervenção de figuras “gradas da localidade” foi essencial para evitar consequências mais graves e funestas.

Imagem: bbc.com
No entanto, o número exato de participantes diverge em alguns registros oficiais. Em um ofício datado de 4 de setembro, o juiz de direito da cidade reportou o incidente ao presidente da Província. Segundo seu relato, o motim teria sido promovido por “um grupo de 50 a 100 mulheres mal aconselhadas por seus maridos e parentes”, que teriam reduzido a pedaços os “papéis relativos ao alistamento” “no meio da rua”, sugerindo um número menor do que o apontado pela testemunha do evento.
Para o artista plástico e pesquisador Isaías Medeiros, que produziu diversas representações visuais inspiradas no Motim das Mulheres, o aspecto mais notável do movimento reside na “força feminina da organização, a coragem dessas mulheres de enfrentar com a força do braço” o poder estabelecido da época. Medeiros descreve que “a história conta que elas entraram em luta com as políticas da época, saíram em marcha pelas ruas munidas de panelas, pratos, colheres de pau, com o que tinham em casa”. Ele ainda complementa, “E quando a guarda da época foi reprimir, elas entraram em luta”, confirmando a intensidade do embate. O artista enfatiza que elas “rasgaram os editais na porta da igreja e seguiram para o jornal [O Mossoroense], na redação onde estavam sendo produzidos os editais do alistamento. Invadiram o jornal e rasgaram os editais”.
Deoclecio Evaristo de Oliveira Júnior, que atua como arquivista no Museu Histórico Lauro da Escóssia, também em Mossoró, interpreta o motim como “um protesto de várias mães que lutaram pelo direito de seus filhos de não participarem de uma guerra”. Ele destaca a relevância do ocorrido ao afirmar que “a importância se dá pelo motivo de que ainda naquela época já existir mulheres capazes de se organizar e, juntas, enfrentar os governantes”. Oliveira Júnior acrescenta uma informação notável, indicando que as mulheres chegaram a tomar o juiz de paz como refém durante aquele dia histórico. Este incidente, para ele, é um “dos grandes pleitos de nossa história”, sendo tema de uma exposição permanente no museu, celebrando o que a instituição categoriza como o “pioneirismo feminino em Mossoró”.
As representações artísticas de Isaías Medeiros conferem a Ana Floriano, a líder do movimento, a imagem com um espeto na mão, fazendo alusão ao relato de que ela teria ameaçado os oponentes de morte, proferindo “com a ponta do meu espeto”. Medeiros relata que Ana Floriano saiu às ruas clamando sua oposição ao alistamento para a Guerra do Paraguai. Segundo ele, “A guerra já havia acabado, mas eles achavam que os jovens estavam sendo alistados para uma possível retomada [do conflito]”. As mulheres expressaram um retumbante “não”, e o artista comenta que “a força da mulher defendendo suas famílias é algo muito bonito”.
O “Dicionário Mulheres do Brasil”, organizado por Schuma Schumaher e Erico Vital Brazil, elucida que Ana Floriano era o nome pelo qual Ana Rodrigues Braga era conhecida, decorrente de seu casamento com Floriano da Rocha Nogueira. A publicação destaca que “Todas as participantes [do motim organizado por ela] eram mães de família respeitáveis, e a cidade ficou chocada com suas ações”. Além de Ana, outras duas mulheres, Maria Filgueira, que era casada com um capitão, e Joaquina de Sousa, são citadas como auxiliares na organização do movimento. É interessante notar, contudo, que à exceção de Maria Filgueira, as demais mulheres envolvidas são frequentemente mencionadas nos registros da época com formulações genéricas como “Ana de Tal” ou “Joaquina de Tal”, o que contribui para sua anonimização histórica. Esta falta de reconhecimento foi um dos pontos de atenção de Isaías Medeiros em suas investigações, levando-o a procurar em suas obras não apenas ilustrar o episódio, mas também atribuir rostos a essas mulheres que o passado tendeu a apagar.
Após o impacto do Motim das Mulheres, que se restringiu a um único dia, as participantes retornaram para suas residências. “Após o episódio, todas voltaram para suas casas”, afirma o verbete do Dicionário, marcando o fim da ação direta, mas não o fim de seu legado. O artista Medeiros reiterou o fascínio que a “beleza e pelo pioneirismo das mulheres nesse contexto machista” do Motim das Mulheres sempre lhe inspirou. Em suas criações, ele fez questão de retratar mulheres negras, ciente de que, embora a historiografia tradicional possa ter se concentrado nas figuras da elite mossoroense, mulheres escravizadas também participaram ativamente da revolta, adicionando uma dimensão de diversidade e luta ainda mais profunda ao evento.
Com informações de BBC News Brasil
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